Guia Resumido do Demografia Médica 2020

Guia Resumido do Demografia Médica 2020

Batemos o número de 500 mil médicos em 2020!  Número histórico e que tem causado preocupação para muita gente pelo aumento da Demografia Médica.

Será que a medicina acabou?

Será que ainda vale a pena fazer medicina no Brasil?

Quanto tem ganhado um médico?

Então galera, esse é um dos temas que o pessoal mais tem pedido para mim no inbox.  Por isso, decidi escrever um texto completo com os REAIS números da Demografia Médica brasileira em 2020.

Quanto ganham? 

Quantos anos tem? 

Que especialidades fazem os médicos? 

Uma das perguntas que eu mais recebo lá no Instagram é:  “Vale a pena fazer medicina no Brasil?” “Quanto eu vou ganhar recém formado”? Para responder essas perguntas nada melhor do que DADOS REAIS E CONCRETOS da Demografia Médica em 2020.

Vejo muita gente já falando que o mercado saturou, que médico está ganhando mal. Além disso, pasmem: já teve seguidor me falando que um professor dele disse que tem médico fazer UBER por aí!

Vocês sabem que nossa pegada aqui não é essa… não somos de mimimi e nem culpamos o mundo pelos nossos fracassos. Nosso projeto se chama ALÉM DA MEDICINA justamente para  mostrar um lado mais inteligente e promissor da medicina. Um lado que poucos tem se esforçado para ver e acabam culpando o “mercado” pela sua preguiça ou desqualificação profissional.

O Dr Mario Scheffer e diversos colaboradores publicaram a 5ª edição detalhada e muito rica do Demografia Médica em parceria com USP e CFM.

São 314 páginas. Mas, para facilitar para vocês, eu vou comentar os principais pontos desse artigos e deixar minha opinião sobre os números aqui nesse texto. 

Alías, a medicina brasileira está ou não em decadência?

Vou dividir esse texto em 4 partes para ficar mais didático:

  1. Na primeira vou falar sobre o crescimento da Demografia Médica no Brasil no último século e onde vamos parar com isso. Além disso, o cenário das mulheres dominando cada vez mais o mercado médico.
  2. Quantidade de especialistas versus generalistas.
  3. E lá fora? Como é a realidade do médico? Brasil versus o mundo.
  4. Número de faculdades de medicina no Brasil.
  5. Número de residências médicas no Brasil
  6. Mercado de trabalho.

1 – Demografia Médica no Brasil no último século

O Brasil atingiu a marca de 547.344 CRM registrados em 2020! Somos 500k médicos no Brasil.

Alguns, assim como eu, trabalham em 2 estados e tem 2 CRM.

Vamos aos números de crescimento da Demografia Médica no Brasil:

Eu entrei na faculdade em 2010, me formei em 2015. De 2010 até 2019 eu fui um dos 179.838 NOVOS médicos que se formaram no Brasil. Ou seja, dos 500.000, 35,96% se formaram nos últimos 10 anos.

Uma dúvida que sempre surge é: “quem foi que acelerou o crescimento de médicos no Brasil?” Quando foi que começou isso?

Tem muita gente que, sem saber, sai culpando um governo ou outro por aí e isso é muito feio.

Foi em 1970, no terceiro período da ditadura, pelo presidente Médici. Há 50 anos, que a curva de crescimento do número de médicos começou a acelerar como você pode ver nesse gráfico logo abaixo. A curva esverdeada é número de médicos e a roxa é a da população. (página 36).

Demografia Médica

Em 1970 saltamos de 42.718 médicos para 113.495 em 1980. Um aumento de 70.777 mil médicos em 10 anos.

Mas vamos olhar com mais atenção para esse gráfico. Existem 2 pontos de inflexão nessa curva. Um em 1970 e um em 2010.

De 2010 até 2020 se formaram no Brasil aproximadamente 180 mil NOVOS médicos. Isso é praticamente o número total de médicos que existiam no país até 1990.

Olhem esse gráfico aqui que coloca os números desde 1920 até 2020. (tabela 6 página 36)

Demografia Médica

Perceba que nas primeiras décadas a Demografia Médica aumentava.

1920 – 1930 = 1k

1930 – 1940 = 5k

1940 – 1950 = 2k provavelmente por causa da segunda guerra mundial

1950 – 1960 = 3k

1960 – 1970 = 17k e daí pra cima

1970 – 200 = 70k

2000 – 2010 = 81k

2010 – 2020 = 180k

Não dá para negar que ficou mais fácil a entrada no curso de medicina no Brasil. Eu mesmo devo meu CRM a essas novas aberturas. Consegui me formar no UNIPAM, graças a uma bolsa que minha mãe conseguiu por trabalhar como telefonista na faculdade. Valeu mãe e pai! Vocês são foda!

Outro ponto importante que temos que avaliar aqui é: se a Demografia Médica cresceu, o da população também não cresce? 

Sim, a população também cresceu nos últimos anos.

Hoje temos 210 milhões de habitantes no Brasil. Mas, para você entender melhor a relação desse número com o de médicos, grave o seguinte:

Nos últimos 100 anos a população aumentou em 6,8 vezes.

Nos últimos 100 anos o número de médicos aumentou 35,5 vezes.

Com esse crescimento, atingimos o marco de 2.37 médicos para 1000 habitantes.

Fazendo uma conta rápida e simplista aqui: isso significa um médico para 421 pacientes.

Para analisarmos melhor o número de médicos no Brasil, além de analisarmos o crescimento da população, precisamos também analisar a SAÍDA DE MÉDICOS do mercado de trabalho.

Uma hora essa galera se aposenta, não é mesmo?

Hoje um número que chama muito a atenção é o seguinte:

Para cada médico que se aposenta no Brasil, temos aproximadamente 10 entrando no mercado. (Página 38).

Ai eu te pergunto:

O que é que você está fazendo para não ser mais um no meio da multidão?

Foi por isso que a gente criou o MedSkill, a maior plataforma de desenvolvimento de carreira médica do Brasil. Ela da o suporte para seu desenvolvimento desde o primeiro semestre da faculdade até a entrada no mercado de trabalho.

Percebam nessa tabela aqui que a Demografia Médica continua aumentando. Em 2019 a saída de médicos foi a menor dos últimos 19 anos!

Demografia Médica

Nos 20 anos avaliados, as entradas somam 280.948 e as saídas, 29.584, com saldo de 251.364. Isso significa que, dos 500 mil médicos em atividade em 2020,mais da metade entrou no mercado de trabalho depois do ano 2000.

Olhando esse gráfico (página 39) dá pra gente perceber bem o aumento da entrada e saída de médicos se mantendo estável até 2019.

Demografia Médica

Projeção de novos médicos (Página 40):

Outra dúvida comum é: quantos médicos se formam por ano no Brasil? 

Vão se formar mais médicos do que se formam hoje??

Esse gráfico da Demografia Médica mostra o seguinte: de 2000 até 2019 eles consideraram o número de registros novos CRMs emitidos (1 aluno = 1 CRM pelo menos)

A partir de 2019 são projetados baseados no número de vagas potencialmente ofertadas de medicina no Brasil.

Sabe-se que é insignificante o percentual de evasão ou retenção nos cursos de medicina. Assim, estima-se que em 2024 estarão formados 31.849 novos médicos. O que corresponde ao número de vagas de graduação oferecidas no país em 2017.

Um ponto que chama a atenção aqui é o seguinte:

Vejam o número de médicos que se formaram em 2012. Foram uns 16000. Em 2024 serão uns 32000, ou seja, DOBROU em 12 anos o número de vagas de medicina no Brasil.

Cabe lembrar que esses números são de vagas já efetivadas e abertas de medicina. Existe a possibilidade de novos cursos ou vagas de faculdade surgirem ainda nos próximos anos.

Demografia Médica

Um outro ponto importante de abordarmos é: a Demografia Médica tem se tornado cada vez mais JOVEM e FEMININA.

Os homens ainda são a maioria dos médicos EM ATIVIDADE no Brasil. Porém a cada ano que passa, a diferença % diminui e a quantidade de mulheres em atuação cresce.

Eu nasci em 1991 (olha eu entregando a idade). Lá, as mulheres representavam apenas 30,8% dos médicos formados e os homens com 69,2%.

Agora em 2020 os homens representam 53,4% dos médicos e as mulheres “ganharam” mais 15,8% do mercado e já são 46,6% dos CRMs do Brasil.

Isso eu falo de números gerais, chegando até os vovozinhos médicos do Brasil. Mas quando a gente analisa esse número para faixas etárias mais jovens, olha só o que acontece. (Pagina 41)

Demografia Médica

A mulherada já é maioria dos CRMs no Brasil. Especialmente abaixo dos 29 anos.

Veja que até os 34 anos as mulheres já são maioria da Demografia Médica e esse número tende a aumentar.

Em 1960, os homens eram 87% dos médicos formados no Brasil. 

A maior presença das mulheres começou a surgir em 2009. Eu até lembro da minha turma de 60, onde 41 eram mulheres se não me engano. Mas essa turma só se formou em 2015. No CFM, em 2009 as mulheres registraram 50,4% dos CRMs e em 2019 57,5% (Página 44)

Olhem só essa tabela. De 2009 para frente, as mulheres são maiorias e não para de aumentar a %.

Nesse gráfico fica ainda melhor para analisarmos isso. De azul ou verde ali são as mulheres e você vê que elas ultrapassaram os homens em 2009 e não pararam mais!

Só uma curiosidade: o estado com o maior % de mulheres atuantes hoje é ALAGOAS.  Com 51% e o menor é o AMAPÁ, com 37,7%.

Um número interessante também é que os médicos são mais velhos que as médicas, em média 6,8 anos. Isso mostra que as mulheres começam a medicina mais cedo ou reprovam menos que os homens hahaha.

Mas onde é que esses médicos estão? 

Como é a distribuição deles nos estados? Em quais estados existem mais médicos por 1000 habitantes e quais estados estão carentes de médicos mesmo com 500 mil médicos no Brasil? 

Continue lendo e descubra.

2 – Especialistas e Generalistas 

No Brasil temos mais especialistas ou generalistas na Demografia Médica? 

Qual especialidade tem mais homens ou mulheres? 

Esses números mudaram o meu jeito de enxergar o mercado médico e me fez ficar mais esperto.

Especialistas versus generalistas. Quem está ganhando este duelo?

Segundo dados do Demografia Médica 2020, em janeiro de 2020 61,3% dos médicos no Brasil eram:

ESPECIALISTAS! 

É isso mesmo! Eu me surpreendi com esse número. Eu achei que tínhamos mais generalistas do que especialistas por aí, mas não. 

A nossa Demografia Médica  é, de certa forma, bem qualificado, especializado.

São 293.064 especialistas contra 184.946 generalistas.

Vale lembrar que aqui só foram contabilizados como especialistas os que concluíram a residência ou possuem título de sociedade.

Pós não conta. Pode ter 10 pós que você será contato como generalista. Por isso falamos tanto que a residência é o melhor caminho a ser seguido, mesmo que não seja o mais gostoso e glamuroso. 

E não basta ser residência, tem que ser uma boa residência. Depois eu vou falar mais sobre isso. Mas está cheio de residência SOBRANDO VAGA por ai.

Exatamente.

Sobram vagas anualmente nessas residências por diversos motivos. Por isso você precisa ESCOLHER onde quer passar. E não só passar na repescagem da 10 chamada no hospital municipal lá do interiorzão sem estrutura nenhuma. 

Residência precisa de volume de paciente, preceptoria e opções de subespecialização.

Aliás, se você quiser saber como conseguir mandar bem nas provas e ESCOLHER sua residência, clique aqui e conheça nossa mentoria que já conta com mais de 700 alunos.

Bom, agora que você já sabe que existem mais especialistas do que generalistas no mercado de trabalho, antes de você se preocupar e descabelar, quero te contar uma coisa que pode te aliviar.

A maioria dos especialistas estão concentrados no sul. Acompanhe comigo esses dados.

Quando olhamos por estados, a diferença fica ainda maior. Existem estados onde mais de 70% da Demografia Médica são especialistas e estados com menos de 50% especialistas.

Isso levando em consideração a % de médicos, não o número absoluto de médicos.

Em %, o DF sai na frente mas em número absolutos. Já SP ganha com aproximadamente 60 mil especialistas a mais que o segundo lugar que é o RJ.

O top 3 número de especialistas por estado no Brasil é SP, RJ e MG. Já os 3 estados com menos especialistas são Roraima, Amapá e o Acre com menos de 600 especialistas em todo estado.

Eu vou comentar mais sobre esse número de especialistas em relação a população também para discutirmos se há ou não saturação do mercado médico nesses estados.

Antes disso eu queria acalmar os apressados e ansiosos.

Vocês sabiam que 70% dos médicos se tornam especialistas após os 35 anos?

E que menos de 20% tem título de especialista antes dos 30?

Lembrando que se você terminar a residência de clínica ou cirurgia geral, que são 2 anos, você já vai entrar pra conta. Então, extrapolando os dados aqui. Mais de 80% da Demografia Médica termina a primeira residência com mais de 30 anos!

E você aí falando que “Já tenho 28 anos, sou velho demais para começar?” “Vou terminar velho demais minha sub, só com 34 anos”. 

Esses são os dados!

Se você terminar a residência antes dos 30 anos você é uma exceção, beleza?!

Para te provar isso, vou colocar a tabela aqui:

OLHA AÍ: 18,2% terminam com menos de 30 anos alguma especialidade e o grande boom de especializações acontece dos 30 aos 34 anos e esse número cresce até os 49 anos!!! 

Ou seja, você provavelmente não está velho demais para nada. Bora pra cima.

Aí você deve ter pensado:

Caramba, tem muito especialista! 

O mercado está saturado, concorrido e tudo mais… ai quando você olha para a distribuição você já começa a entender que existem possibilidades, ainda mais no interior.

Mas tem um dado aqui que fez minha cabeça explodir de possibilidades!

Você sabia que 4 especialidades concentram quase metade dos especialistas?

Quais são elas? 

Vamos lá:

  1. CM 11,3%
  2. PED 10,1%
  3. CG 8,9%
  4. GO 7,7%

Só essas 4 especialidades compõem 38% de todos os especialistas da Demografia Médica do Brasil.

Vou colocar a lista completa aqui para vocês:

São 55 especialidades.

Uma que me chamou a atenção foi a medicina do trabalho. Onde é que está esse pessoal que eu não vejo? haha

Tem mais médico do trabalho do que ortopedista! Mas isso é um viés de observação com certeza.

Mas é legal observar esses dados para não criarmos fantasias na cabeça e falar que a especialidade X ou Y não tem mercado ou está saturada.

Olha por exemplo a geriatria com só 2143 especialistas no Brasil. Como que fala que essa especialidade está saturada?

A medicina de emergência é a residência mais nova no Brasil. Por isso existem apenas 52 especialistas nessa área que é muito promissora. 

Outro ponto muito legal e até polêmico é: a divisão entre homens e mulheres nas especialidades.

Qual é a especialidade com maior % de homens? e de mulheres?

Primeiro, a especialidade mais equilibrada entre homens e mulheres é a PATOLOGIA CLÍNICA/MEDICINA LABORATORIAL. Com 49,7% homens e 50,3% mulheres. 

A pneumologia é quase igual na divisão também.

Para ver o TOP3 dos homens e mulheres eu vou tirar a clínica médica e cirurgia geral que são base para as subespecialidades. Assim a gente vê melhor pra que lado cada um gosta mais de ir, beleza? Só pra deixar tudo bem explicado aqui.

As 3 especialidades com maior dominância em números absolutos de mulheres são Pediatria (30.499), Clínica médica (24.023), GO (17,839) e Anestesio (9061). Já em % entre mulheres e homens o top 3 fica assim: Dermato, Pediatria e endócrino.

Já as 3 com mais homens são: Cirurgia geral (26.874), Clínica Médica (21,270), Ortopedia (14.954) Anestesio (14.595) e GO (13.097).

Já em % entre mulheres e homens o top 3 fica assim: Urologia, Ortopedia e Neurocirurgia. A Urologia tem 97,7% de homens.

No geral, das 55 especialidades que existem, 36 têm homens em sua maioria. Em todas as especialidades cirúrgicas os homens são maioria.

Mas…

Como as mulheres logo logo vão se tornar maioria na medicina, esse cenário vai mudar.

Bom, agora você já sabe que no Brasil: 

  1. Tem mais especialistas que generalistas
  2. Os especialistas ficam mais nas capitais
  3. Que especialista, em geral, tem mais de 30 anos
  4. E quais especialidades tem mais homem e mulher

Agora quero te mostrar onde estão esses médicos ao redor do Brasil e quais os locais mais especialistas por habitantes.

Olhem esse mapa:

Demografia Médica

Veja que a maioria dos médicos se concentram no sudeste e sul. O centro-oeste encontra-se numa relação média de médico por 1000 habitantes. Mas o nordeste e norte possuem menos médicos por 1000 habitantes que o restante do Brasil.

Olha a oportunidade aí.

Todos os estados do Sul e Sudeste, além do Distrito Federal, apresentam maior presença de especialistas. Contrariamente, nos estados do Norte e Nordeste há, em geral, menor presença de especialistas.

Nos estados do Norte e Nordeste existe um maior espaço para especialistas.

Fazendo uma comparação de especialistas por 100.000 habitantes podemos observar que:Demografia Médica

Em São Paulo, Rio grande do sul e Rio de Janeiro  existem cerca da 350 especialistas por 100.000 habitantes. Já no Norte e Nordeste existem estados com menos de 60 especialistas por 100.000 habitantes.

Dessa forma, falar que a Demografia Médica no Brasil é mal distribuído hoje é mais correto do que falar que o número por si só é alto.

Existem países com muito mais médicos por 100.000 habitantes que o Brasil.

3 – Cenário mundial da Demografia Médica

Qual é o país com mais médicos por habitantes no mundo? 

Você sabia que em Portugal existem mais médicos por habitantes que no Brasil? 

E que o Brasil tem a mesma relação de médicos por habitantes que o Japão?

Nesse texto eu vou te mostrar como o Brasil está em relação a diversos outros países em relação ao número de: 

  1. Médicos por habitantes.
  2. Médicos recém formados.
  3. Médicos acima de 55 anos na ativa.
  4. Mulheres médicas (aliás, eu descobri que existem países em que as mulheres já dominam a medicina há anos!).
  5. Número de especialistas em comparação aos demais (aqui você pode reclamar ou deixar de reclamar da sua especialidade).

No nosso primeiro vídeo eu comentei que atingimos 2.4 médicos por mil habitantes e que a meta seria algo em torno de 2.5. 

Tem gente que acha esse número extremamente alto e dizem que o mercado está saturado. Outros já falam que na verdade o que existe no Brasil é uma má distribuição dos médicos e uma super concentração nas capitais do sul e sudeste. 

Mas e no mundo

Que posição o Brasil ocupa nessa relação de médicos por 1000 habitantes?

A Organização para Cooperação e Desenvolvimendo (OCDE) recolhe e compila esses dados ao redor do mundo. Nessa análise foram considerados 45 países.

A média de médicos por 1000 habitantes da OCDE é de 3.5. Ou seja, se você acha que existem muitos médicos no Brasil, espere para ver os dados que vou te mostrar.

Dos 45 países analisados, 30 possuem mais de 3 médicos por 1000 habitantes e 15 possuem menos de 3 médicos por habitantes. Incluindo o Brasil.

Observem comigo esse gráfico:

Imagina você numa situação onde existem, proporcionalmente, mais de 2x mais médicos do que no Brasil hoje. É o caso da Grécia, Austria e Portugal. Vejo uma galera querendo revalidar o diploma e ir trabalhar em Portugal. Não estudei este assunto, mas não me pareceu algo muito inteligente não.

Essa relação de 5 médicos por 1000 habitantes é o que encontramos em grandes centros e capitais Brasileiras, onde a concentração de médicos é maior.

  • Em São Paulo capital, temos 5.61 médicos por 100 habitantes. 
  • No RJ, 5,99.
  • Aracaju 6.01.
  • Em BH 8.13.
  • Recife 8.18.
  • Porto Alegre 9,94.
  • Goiania 9.95.
  • Floripa 10.68.
  • E a campeã é Vitória com 13,71 médicos por mil habitantes.

Em Vitória a concentração de médicos é quase 2.5x maior que em SP.

Então se alguém passar mal em Vitória, fique tranquilo, médico não falta.

Coloquei esses números aqui para vocês não olharem os números de forma geral. Ou seja, 2.4 médicos por 1000 habitantes no brasil não será a SUA REALIDADE. 

Tudo vai depender de onde você trabalhará.

Voltando aos dados mundiais, o Brasil então está longe de ser o país com mais médicos por 1000 habitantes no mundo. Vários países “melhores” que o Brasil apresentam relações maiores como vocês viram no gráfico. 

A gente sabe que no Brasil estão se formando mais médicos do que jogadores de futebol nos últimos anos, né?Será que no mundo é assim também?

A OCDE traz um gráfico comparando o número de recém formados dos últimos 3 anos e compara país por país.

Nosso Brasil é o 27 da lista!

Existem países que formam mais que o dobro de alunos por 100.000 habitantes por ano!

Inclusive Reino Unido, Portugal, Alemanha, Itália…

Olhem o gráfico aqui. (Figura 26, página 82):

Demografia Médica

10,4 por 100 mil habitantes é o número de recém formados do Brasil nos últimos 3 anos. Esse número fica abaixo da OCDE.

Vale comentar aqui que em alguns países os médicos residentes não contam como médicos nesse levantamento da OCDE.

Quando você acha que a coisa está ruim, ela pode se pior haha

Com esses dois dados eu deixo uma reflexão aqui:

Será que existem muitos médicos no Brasil ou o que está acontecendo é um equilíbrio do desbalanço que havia entre habitantes e médicos nos últimos séculos?

Contudo, vale lembrar que o número de formandos por ano no Brasil ainda continuará aumentando até pelo menos 2024 com as novas faculdades já aprovadas e aumento de vagas nas já existentes. Vamos ter que esperar novos dados para observar a evolução do Brasil nesse gráfico.

Outro ponto importante é o seguinte:

Os médicos acima de 55 anos continuam trabalhando? Isso ajuda a entender a disponibilidade atual e futura de médicos no país.

Quem ai vê muito tiozão no plantão ou nos consultórios?

Eu quero trabalhar até ficar bem velho, sempre com saúde claro.

Se existem muitos médicos acima de 55 anos em relação aos recém formados isso pode indicar uma possível escassez de força de trabalho.

Com o envelhecimento da população, o % de médicos acima de 55 anos tende a aumentar também. Hoje no Brasil, 29% dos médicos possuem mais de 55 anos e 71% menos de 55 anos, indicando assim uma grande força de trabalho disponível.

Observem no gráfico (Figura 27, página 84):

Em países onde houve regulação na oferta de vagas de medicina o % de médicos acima de 55 anos é maior, como na Itália, França e Bélgica.

Será que aqui no Brasil vão começar a regular a oferta de vagas nos cursos de medicina ou irá continuar aumentando igual nos últimos anos?

De 2012 para 2024 o número de formados vai dobrar! Saindo de 16k por ano para 32k.

Mas e as mulheres? 

Onde é que elas já dominam o cenário médico?

Sabia que existem países com mais de 70% da população médica feminina e outros com menos de ¼? (figura 28 página 85)

Demografia Médica

O Leste europeu é das mulheres. Olha aí, mais de 70% dos médicos são mulheres na Letônia e Estônia.

A média ainda é mais masculina do que feminina, com 47.9%.

Mas observem o Japão com 21% de mulheres no mercado médico junto com a Coreia do Sul. Deve ser alguma questão cultural muito forte para ter uma diferença assim.

Mas vamos aos números de especialistas no mundo em relação ao Brasil:

No último vídeo eu te mostrei que o Brasil tem a sua maioria de médicos especialistas (61,3%) e fica bem próximo da média da OCDE que é de 64.6%.

Na Grécia o número de especialistas é maior, algo em torno de 80% e nos Estados Unidos 88.3% são médicos especialistas!

Esse estudo comparou também o número de GO, PED e Psiquiatras.

Na GO, o Brasil está no TOP 3 do mundo! Perdendo só para o México e Estônia com com 6;5% da população médica optando por essa especialidade.

Já na pediatria  o Brasil possui 8.6% dos médicos como pediatras e está no TOP 4. Perdendo para Eslovênia, Israel e Estados Unidos.

Agora na psiquiatria é onde existe muita diferença. Somos quase o último do ranking com 2.3% de especialistas psiquiatras.

Pelo que eu vi aqui, países com IDH mais elevado possuem mais psiquiatras do que os demais. Isso deve ter relação com o padrão de adoecimento da população.

De maneira geral podemos dizer com tranquilidade que o Brasil não é o país com maior quantidade de médicos no mundo. Nem que forma mais alunos por ano no mundo.

Mais uma vez ficou clara a super concentração desses médicos nas capitais do sul e sudeste e o predomínio de especialistas, especialmente na GO e Pediatria.

4 – Expansão de cursos e vagas de graduação 

Anota esse número ai: 357 faculdade de medicina no Brasil! E esse número pode aumentar hein.

Bom, vamos lá: bora falar sobre o número de faculdades médicas e vagas de medicina no Brasil hoje.

Vou começar com esse gráfico aqui:

Observem só o crescimento do número de vagas de medicina no Brasil nos últimos 20 anos.

Quando eu entrei na Medicina, em 2010, existiam 16 mil vagas de medicina no Brasil.
10 anos se passaram e em 2020 fechamos mais que o DOBRO de vagas. Sim, são quase 38 mil vagas de medicina abertas no Brasil atualmente.

Para ser exato, em 2020 tínhamos 37.823 vagas de graduação em medicina.

Isso significa um aumento de 124,7% no número de vagas. É um aumento significativo.

De maneira bem simples, podemos dizer que a concorrência por vagas de residência médica em hospitais que prestam vai DOBRAR também. Esse impacto ficará mais perceptível em 2022, onde o boom de formandos começará a invadir o mercado de trabalho.

Uma dica: passem na residência o quanto antes ou se garantam na concorrência maior depois, pois os números não mentem.

Só um detalhe aqui:

De 2001 até 2012 foram abertas 629 novas vagas de medicina no Brasil.

De 2013 para 2019 foram abertas 17 mil vagas aproximadamente no Brasil.

Quem regula essa abertura de vagas é o Ministério da Saúde e existem 2 formas de aumentar o número de vagas:

  • Novas faculdades
  • Novas vagas dentro da mesma faculdade

Vale lembrar que se a faculdade não cumprir com o combinado, o número de vagas pode reduzir. Mas confesso que não vejo isso acontecendo muito por ai não.

O que eu vejo é o número da Demografia Médica aumentando mesmo.

Esse grande aumento no número de vagas aconteceu, principalmente após a implementação da Lei Mais Médicos de 2013 que incentivou a implantação de novos cursos de medicina no Brasil. Especialmente os PRIVADOS nos municípios do interior do Brasil.

Nos últimos vídeos eu mostrei que o número da Demografia Médica no Brasil aumentou. Porém ainda continua MUITO concentrado nas capitais, especialmente do Sul e Sudeste do Brasil.

Nosso país é muito grande e no norte e nordeste existe muito espaço para médicos ainda. 

Então num primeiro momento você pode até ficar com “raiva” dessa lei, mas pensando no nosso Brasil e não somente no seu bolso, eles até tem razão no que fizeram.

Agora se as faculdades do interior estão bem geridas e oferecem um bom curso é outra história.

Eu me formei no CENTRO UNIVERSITÁRIO DE PATOS DE MINAS – UNIPAM

Fui bolsista da terceira turma de particular do interior. Hoje, olhando para trás eu vejo que minha faculdade era muito boa. As críticas que eu fazia eram muito mais imaturidade minha do que deficiência de uma faculdade no interior de MG.

Deixo aqui meu muito obrigado a todos os professores e funcionários da faculdade em nome da Dra Maura, coordenadora do curso e ao Miltão, reitor da faculdade.

Mesmo que a lei MAIS MÉDICOS tenha estimulado o crescimento de faculdades no interior, na prática, não foi bem assim não.

Hoje temos 357 faculdades de medicina no Brasil e a distribuição é a seguinte:

O sudeste possui o maior número de vagas de medicina hoje. São 148 faculdades (da pra fazer uns jogos massa com essa galera hein, já imaginou?)

Podia se chamar JOGOS DO ALÉM. Comenta ai se você ia curtir esses jogos haha). Isso dá um total de 17.404 vagas, ou seja 46% das vagas do Brasil se CONCENTRAM aqui no Sudeste.

Em segundo lugar vem o meu querido nordeste com 85 faculdades e 8943 vagas.

Em terceiro vem a região sul com 58 faculdades e 5332 vagas.

Em quarto o centro-oeste com 34 faculades e 3131 vagas.

Em ultimo lugar a região norte com somente 32 faculdades e 3013 vagas.

Se somarmos as faculdades do CENTRO-OESTE e do NORTE teremos 66 faculdades.

Só no estado de SÃO PAULO temos 73 e em MG temos 47.

Ou seja:

São Paulo e Minas têm praticamente o mesmo número de faculdades do NORTE, SUL e CENTRO-OESTE juntas.

Mas lógico que não podemos levar em consideração só o número de faculdades. Precisamos analisar o número de pessoas que moram nas regiões também.

Analisando esses números vemos que existe um certo equilíbrio de distribuição de vagas com 100 mil habitantes no Brasil.

NORTE 16,3

NORDESTE 15,7

SUDESTE 19,7

SUL 17,8

CENTRO-OESTE 19,2

A MÉDIA DO BRASIL TODO É 18.0

Agora olhando estado por estado, o TOCANTINS tem muitas vagas! São 42 vagas por 100 mil habitantes. São Paulo tem 19,1 e o Amapá só 7,1 vagas por 100 mil habitantes

Eu queria que alguém que faz medicina no AMAPÁ comentasse aqui. Lá são somente 60 vagas anuais de medicina e não existe particular de medicina por lá.

Sempre precisamos olhar os números absolutos e relativos também para não sairmos falando o que não se deve por aí.

Outro número legal de observarmos é a relação de faculdades PÚBLICAS e PARTICULARES.

Das 357 faculdades no Brasil hoje 121 são PÚBLICAS (9742) e 236 são PARTICULARES (28.081). As públicas, além de serem em menor número, oferecem menos vagas (média de 80 por faculdade). Já as particulares oferecem em média 119 vagas por curso.

Hoje temos 84% das vagas na mão das particulares e só 16% nas públicas.

Então se você ainda se pergunta se “Vão me criticar por ter feito particular quando eu formar?” É sinal que você não seguia o Além da Medicina ainda. 

Lógico que existem particulares com ENADE 1 e com ENADE 5, assim como públicas.

A grosso modo, o aluno é quem faz o nome da faculdade e não o contrário.

Só um detalhe, o Norte e o Centro-Oeste vão na contramão do Brasil e tem mais faculdades públicas e vagas na pública do que o restante do Brasil que é mais particular. Em São Paulo, por exemplo, só 10.3% das vagas são públicas.

Voltando a falar da relação vagas no interior x vagas na capital, o Brasil hoje tem 62% das faculdades NO INTERIOR. Esses dados confirmam que a intenção de interiorizar as faculdades está sendo cumprida, porém, assim como o número de médicos no Brasil, estão mal distribuídos.

No norte somente 32,3% das vagas estão no interior. Isso tem relação quase que direta com a infraestrutura hospitalar existente nos interiores do nosso país. Em São Paulo, 73,3% das vagas de medicina estão no interior do estado. Em Goiás, 80,7% estão no interior.

No Rio Grande do Norte 100% das vagas estão no interior do estado. Não há faculdades na capital.

Por se tratar de fenômeno muito recente – com processo ainda em curso, já que muitas escolas médicas abertas nos últimos anos sequer formaram suas primeiras turmas –, novos estudos devem ser realizados para avaliar os efeitos da interiorização relativa do ensino médico.

Vale lembrar também que essa privatização e a participação privada na educação começou em 1967.

O grande desafio é garantir a qualidade do ensino nessas novas faculdades. Alguns estudos já mostraram que a qualidade do ensino nas privadas é inferior às públicas. Não é regra, mas é um fato. Diversos outros países sofreram o mesmo fenômeno nos últimos anos.

5 – Perfil demográfico dos alunos e residentes de medicina no Brasil em 2020

VOCÊ SABIA QUE SOBRAM VAGAS DE RESIDÊNCIA NO BRASIL?

Começar medicina com 23 anos: “já estou velho?”

Escuto essa pergunta direto no inbox e eu vou te provar que não! Você está totalmente dentro da média brasileira. E na residência a MULHERADA já é maioria: 55% das vagas de residência foram preenchidas por mulheres no ano de 2020.

Nesse quinto tópico eu vou abordar 2 temas para vocês: O perfil do aluno e o perfil do residente de medicina no Brasil hoje. Mas por que isso é importante?

Vou brevemente do perfil do aluno e posteriormente sobre o perfil do residente, número de vagas, especialidades mais concorridas e VAGAS QUE SOBRAM NA RESIDÊNCIA.

No inbox, diariamente eu recebo mensagens do tipo: sou velho demais, faço FIES, faço particular, sou mulher e quero cirurgia…

Todas essas mensagens mostram um certo medo por “ser algo” que não é “ideal” para o seu futuro. E é isso que eu quero quebrar hoje. Você pode ser o que quiser e quando quiser na medicina e os dados vão te mostrar que esses “exemplos perfeitos” que vocês tem na cabeça NÃO SÃO A REALIDADE DO BRASIL.

Então vamos lá:

No Brasil em 2019, 59% dos alunos de medicina era do sexo feminino. E esse número tende a aumentar nos próximos anos na Demografia Médica.

Isso é igual a termos 60 mulheres numa sala de 100. Como que é na sua sala ai? Na minha foi 40/20 mais ou menos.

Outro dado importante é que estão formando médicos mais novos hoje na atual Demografia Médica. Acho que o número de vagas e uma maior facilidade para entrar nos cursos (com mais vagas) ajudou nisso.

Em 2013, só 28,7% dos alunos terminavam o curso com 24 anos (eu terminei com 24, entrei diretão com 18 em faculdade particular). Se fosse fazer cursinho, iria tomar uns 3 anos na cabeça, certeza.

Já em 2019 esse número subiu para 36.3%. E as mulheres geralmente se formam mais novas que os homens.

E aqui já podemos deixar claro algumas coisas: SE VOCÊ NÃO ENTRAR NA MEDICINA COM 17-18 ANOS NÃO TEM NADA DE ERRADO OU ATRASADO COM ISSO. Isso é completamente normal!

A grande maioria dos estudantes de medicina se forma entre 25 e 29 anos. Isso significa ter entrado na faculdade depois dos 20 anos. 

Então calma que um ano a mais de cursinho ou ter começado outro curso e não gostado não vai te atrasar em nada.

Até mesmo você que tem 28 anos, vem de uma outra formação e quer medicina, não vejo muito problema nisso. Lógico que com 28 anos a vida é bem diferente de quando eu tinha 18, são outras prioridades. Mas a idade por si só não te prejudica. Pelo contrário, pode te favorecer pela maturidade e pela forma mais realista que se encara as coisas.

Em relação a cor autodeclarada pelos alunos de medicina:

Nas faculdades públicas os brancos são 57,2% e os pretos, amarelos, pardos e indígenas totalizam o restante da %. Já nas particulares os brancos são 72.6% e em segundo lugar os pardos com 20,5%. O estudo do Demografia Médica não trouxe muitos dados sobre as tendências desses números.

Já sobre a renda familiar, tivemos diferenças significativas aqui:

O número de alunos com estratos de renda inferiores aumentou ao longo dos últimos anos. O Fies tem participação direta nisso.

Alunos com renda familiar até 6 salários (uns 6 mil declarados) subiram de 27,3% em 2013 para 44,7% em 2019. 

Isso mostra claramente que medicina não é mais coisa para rico. Metade dos alunos vivem em famílias com menos de 6 salários na atual Demografia Médica. Eu fiz parte dessa galera aí e me lembro até hoje que meu primeiro salário foi o dobro do dos meus pais juntos.

Então se você fala que medicina não dá dinheiro, você tem um viés forte ai meu amigo. Observe a pirâmide de renda brasileira e você verá que médico ganha bem para o contexto atual sim. Agora… falar que hoje é igual a farra dos anos 80-90, eu também concordo que não é mais.

Sobre a origem do aluno de medicina, sobre onde ele estudou no ensino médio:

Vemos que desde 2013 80% dos alunos de medicina PARTICULAR vieram de ensino PARTICULAR durante todo o ensino médio.

Já nas faculdades públicas, 33% dos alunos fizeram todo o ensino médio em escolas públicas.

Em 2019, 16,5% dos alunos que fizeram o ENADE se formaram em medicina por meio de alguma política de ação afirmativa ou inclusão social ou cotas.

Os que mais ingressaram por cotas no Brasil hoje são os indígenas. 60%, seguidos dos de cor preta 37% e parda 30%.

Entre as modificações, está a maior presença de alunos autodeclarados pretos e pardos, de alunos oriundos de famílias de menor renda e de alunos que cursaram todo o ensino médio em escola pública. Nota-se que essa transformação foi maior nos cursos de Medicina públicos, que hoje representam a menor parte do ensino médico no país.

Agora vamos falar dos residentes no Brasil:

Em 2019 existiam 809 instituições credenciadas pelo MEC e  4862 programas de residência médica oferecidos no Brasil.

Em 2019  17.350 médicos começaram o R1 e 1160 desistiram, se afastaram ou tiraram licença por algum motivo.

Vamos olhar quantos alunos se formaram 6 anos antes? 

Eu sei que não é só o recém formado que presta prova, mas é só pra gente ter uma noção.

Em 2019 se formaram 21.941 médicos no Brasil. Se só recém formado prestasse prova faltariam umas 5 mil vagas em 2019.

Agora…

Com as projeções para 2024, com 32 mil médicos formados, vão faltar, nessa lógica, umas 15 mil vagas nessa Demografia Médica. Fora os que vão tentar pela segunda vez.

A concorrência por vagas de residência tende a piorar pelo simples fato de que vemos mais faculdades de medicina se abrindo do que vagas de residência em bons hospitais.

Então, pessoal, levem a sério os estudos para residência e se garantam. Hoje é sim mais difícil entrar na residência.

Se precisarem de um help na organização de estudos, cronograma de revisão, metas de acertos e número de questões. Contem com nossa Mentoria. Basta clicarem aqui para saberem mais!

Só um detalhe aqui: tem muita gente que procura outras formas de se especializar no Brasil. Nós vemos um monte de pós-graduações por aí.

Mas em alguns países a residência é a ÚNICA forma de especializar.

O valor bruto da bolsa de residência em 2020 foi de R$3330,43 por uma carga horária “limite” de 60 horas semanais hahaha. Mas quem é R1 sabe que essas 60h são só no papel da COREME né?

As mulheres também são maioria nas residências 55%.

Vejam esse gráfico:

Somente 2,7% dos homens e 3.2% das mulheres começam a residência antes dos 25 anos!

Ou seja, eu já tinha falado que só ⅓ se forma antes dos 25 anos em medicina.

Agora que entra na residência é menor ainda.

MAIS UMA VEZ, NÃO ENTRAR DE PRIMEIRA NA RESIDÊNCIA não te faz pior que ninguém. Nem atrasa nada.

Se você entrar na residência com 24 anos igual eu fiz, só é uma exceção. Confesso que olhando para trás eu teria trabalhado um ano, juntado dinheiro e feito um R1 menos kamikaze. Tive que dar plantão demais pra me bancar no R1 e isso atrapalha de certa forma, mas criou casca também.

Observem essa figura:

Demografia Médica

Vejam que assim como o número de médicos, a concentração de residentes no Brasil é no SUL E SUDESTE na Demografia Médica de agora.

O sudeste concentra 57% do residentes do Brasil. Sendo que 33.9% de todos os residentes do BRASIL estão no estado de São Paulo, seguido por Minas Gerais (11%) e Rio de Janeiro com 10,7%.

No Brasil como um todo, 68% dos residentes cursam a residência em alguma capital. 

Eu falei que foram +- 17 mil R1 em 2019 né?

Mas no total eram 53776 cursando residência em 2019, do R1 ao R5.

Só pra quem não está entendendo: R1 = primeiro ano de residência

As 4 especialidades mais buscadas pelos residentes são Clinica, Ped, Cirurgia Geral e GO.

As menos procuradas fora: Angiologia, Medicina do Tráfego, Homeopatia, Nutrologia (16 residentes no Brasil!) e Acupuntura.

Tenho certeza que você se assustou com esse número de nutrólogos com residência né?

Lá no instagram a gente acha um a cada 2 stories. Mas cuidado: sempre confira a formação dos médicos no portal do CFM.

Basta procurar por BUSCA POR MÉDICOS no site do CFM que ele te dá as especialidades dos médicos.

Tem muita gente falando que é, mas não é por aí viu.

Uma dúvida que todo mundo tem é:

Será que o numero de VAGAS ocupadas de residência tem aumentado junto com o aumento da Demografia Médica?

Sim! Aumentou em 81% nos últimos 10 anos.

Em 2010 eram 9563 vagas e em 2019 foram 17350 = 7787 vagas preenchidas a mais.

Com uma média de 865 novos residentes a mais por ano!

Vocês sabiam que existia uma meta de se ter 1 vaga de residência para cada alunos formado no Brasil? Esse item da lei federal 12871 de 2013, do programa Mais Médicos foi revogada em 2019.

Olham esse gráfico:

O número de médicos formados é sempre maior que o de R1.

Sabem qual foi a residência que mais expandiu seu número de residentes nos últimos anos?

A Medicina de Familia e Comunidade que saiu de 181 vagas de R1 para 1031 vagas.

Eu já fiz uma live sobre o mercado PARTICULAR da medicina de família que repercutiu muito bem! Eu aposto muito nessa área da Demografia Médica para os próximos anos.

Agora um número que vai chocar muita gente é o seguinte;

¼ das vagas de residências não foram preenchidas em 2019! Sim, 6245 vagas de residência não foram preenchidas.

Vamos aos possíveis motivos disso:

  1. Parte desse número é por desistência. Dica: se for desistir, desista no primeiro mês pra não ferrar com o time de residentes que ficará com um a menos hehe.
  2. Especialidades com mais vagas do que interessados, por exemplo MFC.
  3. Programas novos, sem tradição e nome aí ninguém se arrisca.
  4. Falta de financiamento para as vagas autorizadas, aí não libera a bolsa e não libera a vaga.
  5. Falta de preceptoria e campo de prática. Tipo vaga fantasma. Isso acaba com a residência e descredencia.
  6. Mudança de planos dos gestores e coordenadores dos serviços aí não ofertam o total de vagas autorizadas.
  7. Superestimação do número de vagas por dados incorretos da COREME, demorando a registrar a saída do médico no sistema.

Essas são as possíveis causas.Vale lembrar mais uma vez que UMA BOA RESIDÊNCIA FAZ MUITA, MAS MUUUUUITA DIFERENÇA NA VIDA DO MÉDICO. 

Não estou falando da parte financeira não. Porque plantoneiro raiz faz mais grana que muito especialista.

Mas to falando da qualidade de trabalho após a residência, o respeito dos pares, um pouco de “estabilidade” apesar de eu não gostar dessa palavra e maiores opções de atuação no mercado após a residência. E se você  mandar bem, você ganha muito mais que o generalista.

6 – O atual mercado de trabalho médico no Brasil

QUANTO UM MÉDICO GANHA?

Quanto ganha o médico no Brasil hoje? Quantas horas por semana ele trabalha para ganhar essa grana? Em quantos locais ele trabalha?

Antes de mais nada: vamos dar voz a ciência. Os dados que eu vou expor aqui são baseados em uma amostra de 2400 médicos brasileiros que se assemelham estatisticamente a população brasileira total de médicos em local de domicílio, sexo e idade.

Resumindo, pegaram médicos do Brasil inteiro e entrevistaram um a um.

Olha ai a distribuição dos entrevistados pelo Brasil a fora:

Demografia Médica

O primeiro fato que chama a atenção é que 93% dos médicos SÓ FAZEM MEDICINA. 

Isso é uma imensa adesão à profissão.

Tem um amigo meu que fala: médico reclama mas não larga o osso né? Se fosse tão ruim assim, porque não larga a medicina e vai fazer outra coisa? hahahaha. Essa é a mais pura verdade.

Os 7% se dedicam parcialmente ou não exercem mais a medicina (youtuber hehe brincadeira, empresários, parlamentar, fazendeiro).

Isso mostra que nossa profissão possui grandes vantagens em relação às demais. Basta você observar a quantidade de amigos e familiares que se formam em algum curso e NÃO EXERCEM mais a profissão escolhida. Na medicina isso é raro.

Outro ponto importante: menos de 70% dos médicos atuam sem título de especialista. Esse número bate com a relação generalista/especialista dos vídeos passados.

Dos 26% que falam que trabalham sem título, 16% alegam ter feito algum curso de especialização de curta duração ou pós-graduação. Isso mostra que a galera corre atrás de mais conhecimento após a formatura. Agora tem 10% bruto que dizem que se formaram e o resto foi na base da experiência profissional.

Sabemos que a medicina por ser exercida na prática assistencial e na área administrativa, de gestão, chefia de plantão, docência, perícia e por aí vai. São muitas áreas.

Mas um número que chama a atenção é que 91% TRABALHA COM ASSISTÊNCIA e desses, ⅓ faz algum não-assistencial.

Outra pergunta que recebo muito é: existe espaço no mercado particular para _:

Os dados desse estudo mostraram que 28,3% atuam no setor EXCLUSIVAMENTE particular. Isso inclui plano de saúde e 50% tem ação no público e no privado ao mesmo tempo.

Agora observem esse número do IBGE:

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE1, realizada em 2019, revelou que 71,5% dos brasileiros usam exclusivamente o SUS. Enquanto 28,5% da população do país possuíam algum tipo de plano ou seguro de saúde privado.

Já falei isso uma vez: 71,5% dependem SÓ DO SUS. E o SUS resolve tudo? 

Não! Então para onde esse pessoal vai buscar atendimento?? Particular. 

Mas se você não souber ser encontrado e prestar um serviço bom, você vai continuar reclamando que não há espaço no mercado particular.

No Medskill existem 2 cursos para isso: O Anamneses inesquecíveis e o Instagram Profissional. Onde eu te ensino sem lero-lero o que você precisa saber para mandar bem na consulta (fidelizando os pacientes e não mandando todo mundo embora) e como criar um instagram profissional sem dificuldade e altamente efetivo. 

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Um dado interessante aqui é:

 66,7% dos médicos que estão somente no PÚBLICO são jovens de até 25 anos. Isso inclui residência médica. Está explicado né? não sobra tempo pra nada! hahaaha

Já os especialistas, só 13.2% atendem exclusivamente no SUS, pelo simples fato de terem opções melhores no particular.

Geralmente os que trabalham no particular puro possuem entre 55 e 65 anos. Ou seja! Demora largar os vínculos públicos.

Sobre os plantões médicos, 47,4% dizem fazer plantão. Ou seja, é metade metade.

Tem um dado importante aqui: o médico plantonista tem carga horária maior que o não plantonista. São 80h/semana versus 57h/semana em média. Além disso o plantonista tem em média mais vínculos que o não plantonista 4×3.

Dos médicos com menos de 25 anos: 71% fazem plantões e até os 35 anos, 69% continuam dando plantões.

Isso mostra que o plantão é um companheiro do médico por longo tempo.

Minha especialidade (medicina esportiva), não tem plantão, mas mesmo assim eu mantenho 2 plantões fixos mensais como uma estratégia de diversificação de renda. 

Fica a dica aqui, nunca coloque todos seus ovos numa cesta só.

Na pandemia, com consultórios vazios, o plantão foi muito útil e ter esse vínculo me ajudou a manter a renda inalterada durante a pandemia. Só migrei do consultório para o plantão por alguns meses.

Com 75 anos, 16% ainda continuam dando plantão. Aqui isso pode acontecer por 3  motivos:

  1. A prática médica depende do regime de plantões: intensivista, por exemplo.
  2. Desorganização financeira.
  3. Vontade mesmo.

Eu quando ficar velho quero arrumar umas coisas assim para minha semana. Um plantão no SUS com alunos e tudo mais deve ser legal demais.

Agora vamos falar do número de trabalhos (vínculos) e horas de trabalho. Isso aqui eu achei bizarro!

Os médicos com menos vínculos são os mais jovens e os mais velhos. Sinal de que está começando e terminando a prática médica.

Somente 20% dos médicos tem 1 único vínculo e 11% tem mais de SEIS vínculos!

A média é 3.61 vínculos.

Fiquei pensando nisso aqui e realmente é bem comum isso.

Eu mesmo faço consultório, preceptoria, plantão, gestão. São 4 vínculos com cargas horárias bem distintas.

Ou seja, se prepare que trabalhar em vários lugares faz parte da vida da maioria dos médicos.

Preste atenção nessa figura:

Demografia Médica

 

Você vê aí no gráfico que de 2014 para 2019 os médicos abriram mais frente de trabalho e assumiram mais vínculos. O número com mais de 6 vínculos saltou de 5% para quase 20%.

Isso impacta diretamente na carga horária semanal dos médicos.

Falamos sempre de BURNOUT na medicina e isso pode ser um sinal.

Vejam a média de trabalho dos médicos no último ano. Para mim esse foi o pior número desse artigo:

Demografia Médica

Mais de 80 horas por semana é MAIORIA hoje! Isso é muito preocupante.

Não sei a real causa disso. Mas na minha opinião é descontrole financeiro. Já vi vários amigos entrando em dívidas para manter o padrão de vida alto e consequentemente pagam isso com horas de trabalho.

Só uma frase que gosto muito aqui:

Status é comprar coisas que você não quer com o dinheiro que você não tem a fim de mostrar para gente que você não gosta uma pessoa que você não é. – Geraldo Eustáquio de Souza

Cuidado com isso.

Trabalhar 80h não parece nem saudável, nem necessário. Eu sei que existem momentos que a fase de vida exige (residência é um deles) mas manter esse ritmo por muitos anos não é legal.

Em 2014 a maioria trabalhava de 40 a 60 horas, e aí está super ok. Mas MAIS de 80h sendo maioria é preocupante demais.

Resumindo, nessa análise, o número de vínculos e de carga horária aumentou nos últimos anos.

Mas e aí, quanto de grana que isso dá no final? Será que estamos ganhando mais por trabalhar mais?

Os dados a seguir são autorreferidos pelos entrevistados. Sendo que 16% ficam de segredinho e não contam quanto ganham.

Alguns fatos:

  1. Quem trabalha no setor público ganha menos.
  2. 50% dos médicos no Brasil ganham mais de R$16.000.
  3. Menos de ⅕ ganham menos de R$11.000.
  4. somente 17.6% ganham mais de R$27.000.

Vejam a tabela a seguir:

Demografia Médica

Vejam que tem mais gente ganhando mais de 32k do que entre 27-32.

O que vocês acham dessas médias? 28% ganham entre 16k-27k no Brasil hoje.

Lembrando que ganhar acima de R$11.000 no Brasil hoje já te coloca, automaticamente, no 1% que mais ganha dinheiro no país hoje.

E, particularmente falando, se você é jovem, não tem filhos ou outros compromissos inadiáveis na sua agenda, ganhar mais de R$11,000 é relativamente fácil. Arrisco dizer que até mais de 20k não vejo muita dificuldade em algumas regiões do Brasil. Basta ter disposição para trabalhar.

Médicos têm tudo para construir uma aposentadoria muito sólida baseada no seu próprio trabalho e investimentos. Basta ter inteligência financeira e não sair comprando carrão e casona só para mostrar para os outros por aí.

Já vi vários médicos ganhando 20, 30, 40, 50 mil por mês e tendo o mesmo como custo fixo de vida. Confira nosso material sobre inteligência financeira para médicos nesse link, clique aqui e aprenda agora mesmo.

7- Percepção dos médicos

Por fim, o Demografia Médica questionou a percepção dos médicos sobre esses dados que acabei de citar aqui. Veja o que apareceu:

Sobre salário reduzido, condições de trabalho e carga horária:

Mais da metade dos médicos afirma que passou a ganhar menos nos últimos três anos.

Na outra ponta, um terço dos entrevistados (33,2%) discordou totalmente da afirmação de que passou a ganhar menos. A soma dos que não perceberam piora na remuneração chega a 44,2%. 

A maioria avalia que suas condições de trabalho pioraram nos últimos três anos.

Mais da metade dos médicos concorda que passou a trabalhar mais e que a carga horária aumentou. 

Entre os que trabalham para o SUS, mais da metade avalia que pioraram os serviços oferecidos à população.

Mesmo queixando-se do conjunto das condições de trabalho, médicos do setor público e privado disseram que estão satisfeitos com a profissão. Total (43%) ou parcialmente (21,2%), 64,2% concordaram com isso. Apenas 13,4% disseram discordar totalmente.

Sobre o SUS e o setor privado:

“Clínicas populares e planos de saúde baratos são bons para o mercado de trabalho médico”, indica outra das afirmações propostas. A grande maioria dos médicos (80,4%) discorda em algum grau de que esses serviços e produtos sejam bons para o mercado de trabalho médico. 

As clínicas populares privadas tiveram grande expansão nos grandes centros brasileiros nos últimos anos. Os chamados planos “acessíveis” são planos de saúde mais baratos, de menor preço e de menor cobertura.

Nos últimos anos as condições de exercer medicina no Brasil mudaram muito. Há 20 anos era muito mais fácil de estabelecer como médico com altos salários e sem concorrência. 

Hoje, com um maior número de médicos no mercado, precisamos nos adaptar. Especialmente em tempos de internet, onde a população assume protagonismo na busca, indicação e validação dos serviços médicos prestados por nós. Estar online atualmente não é uma opção, encaro como uma obrigação para aqueles que querem continuar na briga pelo seu lugar ao sol. 

Vale lembrar que o ONLINE só mostra o que existe no OFFLINE. A qualificação profissional é indispensável e deve andar junta as novas ferramentas disponíveis ao médico.

8- Por fim…

Espero que tenham gostado dessa nossa minissérie Demografia Médica que foi retirada do trabalho do Dr Mári Scheffer em parceria do CFM com a USP.

Esses dados nos ajudam a ter uma real noção da medicina no Brasil hoje e abre espaço para grandes discussões.

Vou ficar por aqui, um grande abraço e até a próxima!

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